Literatura

A literatura periférica e o centro que não quer se mover

Beatriz Lacerda Beatriz Lacerda · Diretora editorial 2026-05-25 Atualizado: 2026-05-27
A literatura periférica e o centro que não quer se mover

Escritores das periferias brasileiras conquistaram leitores e prêmios internacionais. O establishment literário ainda não sabe o que fazer com isso.

Há uma cena que se repete em feiras literárias pelo Brasil. Um escritor da periferia — de São Paulo, do Rio, de Belém, de onde for — lança um livro que vendeu dezenas de milhares de cópias, foi traduzido para dez idiomas, ganhou prêmios em Frankfurt e Londres. E ainda assim, quando chega a hora de montar as mesas de debate sobre "o futuro da literatura brasileira", seu nome aparece nas listas de "vozes emergentes" — não nas de "autores consolidados".

Essa assimetria entre reconhecimento popular e internacional de um lado, e legitimação pelo establishment literário nacional de outro, é um dos fenômenos mais interessantes — e mais reveladores — da cultura brasileira contemporânea.

O que mudou e o que não mudou

A literatura periférica brasileira não é nova. Escritores como Carolina Maria de Jesus, João Antônio e Plínio Marcos já exploravam, décadas atrás, territórios que a literatura "oficial" preferia ignorar. O que mudou nas últimas duas décadas é a escala, a organização e a visibilidade.

Saraus, coletivos literários, editoras independentes, redes de distribuição alternativas — um ecossistema se formou que não depende mais das grandes editoras ou dos suplementos culturais dos grandes jornais para existir e prosperar. Esse ecossistema produziu autores que chegaram ao mercado internacional antes de serem reconhecidos em casa.

O centro e suas resistências

O establishment literário brasileiro — críticos, editoras tradicionais, programas universitários de literatura — tem uma relação ambígua com essa produção. Há um reconhecimento crescente, mas também uma tendência a categorizar esses escritores em guetos temáticos: "literatura de periferia", "literatura negra", "literatura de favela" — como se o lugar de origem definisse os limites do que pode ser dito.

Nenhum crítico diria que Machado de Assis escrevia "literatura de classe média carioca do século XIX". Mas escritores contemporâneos das periferias são frequentemente reduzidos ao seu contexto de origem, como se a experiência vivida fosse o único material possível — e como se isso fosse uma limitação, não uma riqueza.

A literatura brasileira está se tornando mais plural, mais diversa e mais interessante. O centro ainda está aprendendo a se mover.


Beatriz Lacerda
Beatriz Lacerda
Diretora editorial

Crítica literária e ensaísta carioca. Doutora em literatura comparada pela UFRJ, com passagem pelo King's College London. Colabora com suplementos culturais de jornais nacionais há vinte anos.

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