Música

MPB em 2026: entre a nostalgia e a reinvenção

Beatriz Lacerda Beatriz Lacerda · Diretora editorial 2026-03-12 Atualizado: 2026-03-14
MPB em 2026: entre a nostalgia e a reinvenção

A Música Popular Brasileira vive um momento de redefinição. Quem define o que é MPB hoje — e para quê?

MPB é uma sigla que sempre foi mais política do que musical. Nasceu nos anos 1960 como forma de distinguir uma produção que se via como "séria" do que era considerado comercial ou alienado. Ao longo das décadas, expandiu-se para incluir artistas tão diferentes que a categoria perdeu qualquer coerência estética — mantendo apenas uma coerência sociológica: MPB é o que a classe média intelectualizada brasileira ouve e legitima.

Essa definição sempre foi problemática. Hoje, com as fronteiras entre gêneros mais porosas do que nunca, ela se tornou ainda mais difícil de sustentar.

A geração que não pediu permissão

Artistas como Liniker, Johnny Hooker, Duda Beat e Criolo não se encaixam facilmente em nenhuma categoria estabelecida. Transitam entre o samba, o soul, o eletrônico, o pop e o que quer que seja necessário para dizer o que precisam dizer. Alguns são chamados de MPB por críticos que precisam de um rótulo. Outros recusam o rótulo com veemência.

O que esses artistas têm em comum não é um gênero musical, mas uma postura: a recusa de pedir permissão ao establishment para existir. Eles chegaram ao público antes de chegarem às rádios convencionais, antes de serem validados pelos críticos tradicionais, antes de ganharem os prêmios que o mercado distribui como certificados de legitimidade.

O que fica

A MPB como categoria vai continuar existindo porque é útil para quem precisa organizar catálogos, programar festivais e escrever críticas. Mas a música brasileira mais interessante que está sendo feita hoje não cabe nessa categoria — e não precisa caber.

O que fica, no final, não é o rótulo. É a música. E a música brasileira, em toda a sua diversidade e contradição, nunca foi tão rica.


Beatriz Lacerda
Beatriz Lacerda
Diretora editorial

Crítica literária e ensaísta carioca. Doutora em literatura comparada pela UFRJ, com passagem pelo King's College London. Colabora com suplementos culturais de jornais nacionais há vinte anos.

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